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As Tecnologias de Informação e Comunicação podem ser descritas como um conjunto de inovações tecnológicas e atividades e constituem a base da economia digital. Deste modo, verifica-se uma presença, crescente, dos avanços tecnológicos nas atividades económicas, com ênfase na integração de sistemas físicos e digitais responsáveis por gerar novos processos produtivos e modelos comerciais, de caráter inovador e inteligente. Neste sentido, o contributo das TIC, para as empresas, é evidente no que toca ao aumento da eficiência organizacional e produtiva, assim como na dinâmica competitiva, qualidade e confiança dos consumidores.

As TIC envolvem a digitalização de serviços ou processos, aproveitando a internet para comunicação e interação em tempo real. Neste contexto, surge o conceito “Internet das Coisas” (Internet of Things, IoT), definida como uma rede de objetos físicos que, recorrendo a tecnologias, software ou sensores do estado da arte, assim como a internet, permite a conexão, de forma inteligente, destes objetos com os ambientes interno e externo, visando a troca de dados entre dispositivos.

A IoT é, atualmente, aplicada a diversos domínios, nomeadamente o empresarial, industrial e urbano, causando um impacto positivo e disrupção no quotidiano empresarial, traduzindo-se na disponibilização de novos tipos de serviços e produtos de alta qualidade.

A evolução e o ritmo frenético dos avanços tecnológicos, associados à IoT, contribuiu para uma nova realidade produtiva: A Indústria 4.0 (I4.0). Com o aumento populacional, houve necessidade de incrementar a eficiência e a produtividade das unidades fabris que, ao integrarem estas novas valências, depararam-se com enormes quantidades de dados (Big Data), sem o devido tratamento e validação. Para solucionar esse problema, sugiram inovações como é o caso de Cloud Computing, assim como outras soluções no âmbito da IoT. De facto, a aplicação das tecnologias mencionadas, trouxeram vantagens aos gestores industriais, alterando o modus operandi de algumas unidades fabris, traduzindo-se em aumentos de produtividade, diferenciação da oferta e controlo de cada processo que ocorre na fábrica. Em suma, de todas as tendências no setor das TIC, reconhece-se a IoT como pertinente e essencial para assegurar a troca de informação virtual, de modo bilateral, entre equipamentos, permitindo uma análise e interação em tempo real.

Portugal não está indiferente a estes avanços e, com as novas guidelines previstas no enquadramento estratégico Portugal2030, visa continuar os esforços para promover a modernização e resiliência dos setores mais tradicionais, de baixa e média/baixa intensidade tecnológica, dotando-os de condições para ascenderem na cadeia de valor. Tal é o caso do setor agrícola que, em 2019, contribuiu com 2,1% para o Produto Interno Bruto (PIB) português. Todavia, apesar dos benefícios e vantagens das TIC e da IoT, existe uma baixa presença dos mesmos no setor agrícola português, resultado da produção rural e falta de acesso à internet e outros meios digitais. Em adição, mesmo que exista acesso digital, é estritamente necessário assegurar uma conexão entre todos os equipamentos e pontos do campo agrícola.

Porquê esta necessidade de digitalização na agricultura?

O aumento da população, a contínua urbanização, a maior longevidade humana, as alterações na dieta alimentar e no poder económico são fatores que contribuem para o aumento da procura, mundial, de alimentos, energia e água. As TIC podem mitigar ou solucionar os problemas associados a essas dificuldades, fomentando a produção de alimentados de qualidade superior, com menor consumo de recursos.

Qual é o estado da agricultura digital, em Portugal?

A agricultura digital (agricultura 4.0) é composta por tecnologias, já operacionais ou em desenvolvimento, como a robótica, nanotecnologia, produção de proteínas sintéticas ou recombinantes, agricultura celular, genética molecular, inteligência artificial, blockchain, automação, entre outros, cujas características são essenciais para o futuro desenvolvimento da agricultura e dos sistemas agroalimentares.

Todavia, as regiões onde incide a produção agrícola nacional ainda desconhece muitas das tecnologias disponíveis e prefere manter os métodos tradicionais. Por outro lado, existe uma clara ausência de literacia digital, independentemente da tecnologia que já existe e facilita o processo. Muitos dos métodos podem ser aprimorados, aumentando a produtividade, a rentabilidade e desenvolvimento regional, atraindo jovens talentos devido à criação de emprego qualificado. Ora, com uma eficiente utilização de recursos e dos equipamentos (que se traduz em maior produção e qualidade), Portugal pode reduzir custos na importação de alimentos, apostando em produtos made in Portugal.

Em que medida as TIC e a IoT podem contribuir?

Existem inúmeros dispositivos e tecnológicas que podem auxiliar a agricultura no trabalho diário. Por exemplo, redes wireless de sensores ambientais, indicadores biométricos e nutricionais do solo, observações, em tempo real, do campo e colheitas, análises laboratoriais, sistemas avançados de previsão meteorológica ou até mesmo modelos para revisão e previsão de risco, assim como potencial produtivo. Recentemente, a investigação tem incidido na capacidade para detetar limitações do solo e os modelos de recomendação de fertilização. Por conseguinte, é possível estruturar a digitalização agrícola em 3 vertentes/objetivos, a saber:

  • Agricultura preditiva: um tipo de produção que recorre a plataformas digitais, capazes de integrar diferentes sensores e fontes de dados assim como ERPs para prevenir o aparecimento de doenças, monitorizar solos e fertilidade das colheitas ou mesmo a sua gestão;
  • Agricultura Sustentável: baseada na utilização eficiente dos recursos disponíveis e, por conseguinte, obter níveis de produção elevados, contribuindo para a economia circular;
  • Agricultura autónoma e robotizada: aquisição de robôs com a capacidade de colheita de fruta, limpeza ou irrigação;

Para pequenos agricultores, vários processos baseados na intuição, tradição e experiência visual podem ser complementados, na atualidade, por novas tecnologias, elevando a qualidade da gestão da fazenda e dos produtos obtidos, com análise de dados consolidados e agilidade nos processos automáticos. Este é o princípio por detrás da Agricultura 4.0.

O que se pode esperar da agricultura 4.0?

Com a agricultura 4.0 espera-se contribuir para a sustentabilidade do planeta e, simultaneamente, produzir maior quantidade de recursos agrícolas, de qualidade superior. Por exemplo, os agricultores podem reduzir a quantidade de água utilizada, recorrendo apenas às quantidades mínimas necessárias ao cultivo de espécies, contrariamente ao método de irrigação uniforme pelo campo.  A título de curiosidade, podemos destacar o sensor “terraSmart 3 em 1″, capaz de determinar a temperatura do solo, o seu conteúdo em água e a condutividade elétrica total. Os benefícios acima permitem monitorizar, constantemente, o volume de água (%) e, por conseguinte, aplicar um modelo de irrigação eficaz tendo em conta toda a capacidade e dimensão do campo.

Tendo em conta o estado atual da micro e nanotecnologia, existe uma variedade de sensores, para as diferentes tarefas/obstáculos na agricultura. Há sensores que permitem avaliar o estado das culturas, do solo e detetar eventuais doenças numa fase inicial. As unidades de investigação também procuram desenvolver alternativas que indiquem a quantidade de nutrientes disponíveis, no solo, para as plantas, assim como a concentração de nitrogénio, fundamental para a produção de proteínas e ácidos nucleicos e, consequentemente, para o desenvolvimento da planta. Por fim, há que mencionar a aposta em robôs autónomos, que, estrategicamente colocados no campo, podem recolher amostras e enviar a informação, em tempo real, o que permite gerir cada zona, de forma individual, facilitando a analise do agricultor. Existem inúmeras alternativas em estudo, com elevado potencial. A agricultura 4.0, resultado das TIC e da IoT pode ser, de facto, a galinha dos ovos de ouro para novos investidores ou agricultores.

A FI Group, sempre em estreita coordenação com empresas e entidades do sistema científico e tecnológico nacional, contribui e apoia nos seus projetos de inovação e na captação de financiamentos para potenciais atividades de I&D. Nesse sentido, a empresa reconhece a importância e caráter inovador das TIC, na sociedade moderna, assumindo o compromisso de tornar ideias holísticas e disruptivas, num sucesso corporativo. De facto, no setor agroalimentar associado às TIC, a empresa dispõe de clientes, cujos projetos inovadores foram aprovados, e se encontram na vanguarda dos seus setores de atuação. Na missão de elevar o valor e reconhecimento nacional, a empresa espera continuar a promover este tipo de projetos e, no caso particular da agricultura 4.0, contribuir para o desenvolvimento das empresas do interior do país e, por conseguinte, valorizar a economia regional e nacional.


SOBRE O AUTOR

Ricardo Manuel Fernandes Santos, mestre em Biologia Molecular e Celular pela Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, com tema de tese de mestrado “The Yeast Comet assay: a study to optimize the technique for the evaluation of DNA damage caused by the exposure to uranium mine effluents”. Consultor na FI Portugal desde Julho de 2021.

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