21 Junho 2024

Ao longo dos últimos anos, os países têm reconhecido o peso que o setor turístico e a sua própria digitalização detém sobre a economia.

Por esse motivo, têm sido desenvolvidas várias estratégias que passam pela criação de diversos programas de incentivo para estimular a adoção de novas tecnologias. Esses apoios podem manifestar-se na forma de benefícios fiscais ou incentivos financeiros para empresas que procuram implementar soluções digitais inovadoras.

Ao financiar a digitalização no turismo, o Estado não apenas promove a modernização do setor mas também incentiva o desenvolvimento de experiências turísticas únicas e diferenciadas, que podem atrair um público mais amplo e diversificado.

Em Portugal, o PT2030 e o Sistema de Incentivos à Inovação Produtiva, visam apoiar o acesso a financiamentos para projetos que promovam a requalificação dos destinos turísticos, incluindo a digitalização dos serviços. O programa oferece incentivos como subsídios a fundo perdido para a implementação de tecnologias que melhoram a experiência do turista/visitante e a gestão dos destinos.

Desta forma, não só se promove a modernização e a competitividade global, mas também se contribui para a criação de experiências turísticas mais ricas e personalizadas.

Internet das Coisas (IoT) e o Turismo

Também a Internet das Coisas (IoT) tem demonstrado um papel fundamental no apoio à digitalização no turismo: esta permite ligar dispositivos físicos à internet (p.e.: tablets e telemóveis), proporcionando uma infraestrutura para uma interação mais profunda e informativa entre os destinos turísticos e os seus visitantes.

Um dos aspetos fundamentais tem a ver com a recolha e análise de dados em tempo real e monitorização das opções do utilizador (monitoring consumers). Isto permite que os players turísticos ajustem as suas ofertas rapidamente em resposta às preferências e comportamentos dos consumidores, melhorando assim a eficiência operacional, reduzindo custos e até melhorando a satisfação do cliente. Alguns exemplos são:

  • Sensores de movimento e fluxo de visitantes: em locais turísticos populares, como museus ou parques temáticos, sensores de movimento ajudam a monitorizar a quantidade de visitantes em diferentes áreas e horários. Esta possibilidade, permite que as entidades ajustem o pessoal e os recursos necessários para evitar superlotação e melhorar a experiência do visitante;
  • Recomendações baseadas em localização: algumas aplicações móveis com tecnologia IoT podem oferecer recomendações personalizadas baseadas na localização atual do turista. Por exemplo, a App do “TripAdvisor”, é capaz de sugerir restaurantes próximos, eventos ou atrações com base nas preferências previamente indicadas pelo utilizador e na sua localização em tempo real;
  • Prevenção de aglomerações: os sensores de IoT podem ser usados para monitorizar áreas públicas como praias e parques, informando tanto às entidades como aos visitantes sobre as condições de lotação em tempo real. Na pandemia COVID, foram implementados alguns sistemas deste género em praias portuguesas. Também algumas empresas de transporte turístico podem usar dados de IoT para ajustar horários e rotas de autocarro ou barcos turísticos com base no número de pessoas a aguardar nas paragens ou portos. Isso ajuda a otimizar o serviço e reduzir a espera, melhorando a experiência geral do consumidor;
  • Wearables para visitantes: alguns dispositivos wearable (e.g. pulseiras inteligentes), podem ser utilizadas em resorts e cruzeiros para oferecer uma experiência personalizada. Estes dispositivos podem servir como chave do quarto, carteira digital, e tracker de localização. Adicionalmente estão aptas a recolher dados sobre as atividades preferidas pelos hóspedes/turistas, permitindo aos operadores turísticos personalizar serviços e recomendações. Neste contexto, o “Disney MagicBand” é utilizado para aceder aos parques, desbloquear quartos de hotel e fazer compras, enquanto recolhe informação útil para a Disney sobre as preferências dos seus visitantes;
  • Interação via smartphone: o uso de smartphones permite atualmente, realizar check-in e pagamentos automáticos ou até mesmo abrir a porta do quarto de hotel. Os hotéis Marriott, por exemplo, têm desenvolvido várias ações que visam oferecer experiências totalmente personalizadas ao longo de várias estadias, guardando as preferências do utilizador para uma estadia futura, tais como a temperatura e iluminação do quarto, hora de acordar ou necessidades especiais de alimentação, programando automaticamente os sistemas e serviços no momento do check-in.
  • Manutenção Preditiva: a IoT também pode ser utilizada para monitorizar condições de infraestruturas e equipamentos turísticos, permitindo a manutenção preditiva. Isto significa que os problemas podem ser identificados e resolvidos antes que causem inconvenientes aos turistas, garantindo a continuidade e qualidade do serviço. Por exemplo, aeroportos como o de Amsterdam Schiphol utilizam a IoT para controlar o estado de equipamentos essenciais da infraestrutura, tais como esteiras de recolha de malas, agendando manutenções de acordo com a análise de dados recolhidos.
  • Dados Biométricos: a biometria é a capacidade de identificar passageiros usando o reconhecimento facial, por exemplo, que possibilitará evoluir para o conceito de aeroportos sem contato. Todo o fluxo de ações realizado no aeroporto pelo viajante, desde o check-in até à entrada no avião, pode ser conduzido de forma rápida e sem problemas. A Amadeus IT Group, desenvolveu um software que tem permitido aos passageiros aceder ao embarque, eliminando a necessidade de apresentar sucessivamente documentos ou cartões de embarque.

Em suma, os dispositivos e sistemas baseados em IoT podem oferecer uma gama de informaçõs sobre as preferências dos consumidores, ajudar na gestão dos fluxos de visitantes, bem como melhorar a própria experiência, tornando as viagens mais agradáveis e seguras.

Outro dos aspetos fundamentais tem a ver com a redução do impacto ambiental e eficiência energética. Esta é uma área de crescente interesse e desenvolvimento, pois combina eficiência operacional com sustentabilidade. A IoT permite a monitorização precisa e a gestão eficiente de recursos, que são essenciais para minimizar a pegada ecológica das atividades turísticas:

  • Gestão inteligente de energia: existem hotéis que recorrem a sistemas de gestão de energia que utilizam sensores IoT para definir o aquecimento, ventilação e ar condicionado com base na ocupação dos quartos, garantindo um poupança energética mas também a disponibilização de um ambiente confortável quando o visitante entrar no quarto. Também a Host Wise, procurou em 2020 e 2021 (em contexto pós pandémico), desenvolver um sistema de domótica para abertura de portas remotamente. Deste modo, era possível evitar contactos diretos entre o staff e os hóspedes e obter um procedimento mais eficiente de gestão da execução simultânea de vários check-ins em locais diferentes. Ao mesmo tempo, a adoção de sensores de presença e timer customizado, permitiu eliminar consumos energéticos não necessários
  • Iluminação inteligente: as tecnologias de IoT também podem ser empregues para gerir sistemas de iluminação em áreas turísticas, usando sensores de luz e movimento para ajustar a iluminação de acordo com a presença de pessoas e as condições de luminosidade natural, garantindo não só a otimização energética, mas também a vida útil das lâmpadas e redução de custos de manutenção;
  • Sensores de humidade do solo: em alguns destinos turísticos que incluem grandes áreas verdes, como campos de golfe e parques, os sensores de humidade do solo podem otimizar a irrigação ao determinar precisamente quando e quanta água é necessária, evitando o uso excessivo de água, mantendo as referidas áreas verdes de forma sustentável, reduzindo o consumo total de água.

A IoT pode, de facto, ser uma ferramenta poderosa no apoio à digitalização no setor do turismo, permitindo uma gestão mais inteligente e sustentável dos recursos naturais e contribuindo para a preservação dos destinos turísticos para as gerações futuras. Ao mesmo tempo, proporciona experiências, mas direcionadas e focadas no consumidor através da digitalização de ações que até ao momento eram realizadas de forma convencional, genérica e com pouca capacidade de adaptação.

A digitalização do turismo, impulsionada pela adoção de tecnologias IoT, abre novos horizontes para a criação de experiências inovadoras e sustentáveis. Através da implementação destas ferramentas, as empresas turísticas posicionam-se para o sucesso no futuro, garantindo a competitividade no mercado global.

Ana Caetano, Consultant


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