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Qual é o impacto da COVID19 na economia global? Quando, há três meses, o resto do mundo assistia de longe ao desenvolvimento de uma crise na China, causada pela COVID19 poucas foram as pessoas que previram as proporções, e consequentemente o impacto na nível global a que este novo vírus iria atingir.  

Os últimos dados obtidos em relação à China aparentam ser “mais animadores”, mostrando que através da aplicação de medidas restritivas de quarentena rigorosa o país conseguiu baixar a curva de novos infetados e, também, o número de mortes. 

No entanto, o cenário no resto do globo é cada vez mais inquietante, com vários países por todo o mundo a aderir ao regime quarentena, muitos em estado de emergência, e a registar um contínuo aumento do número de casos de coronavírus. Recentemente, os Estados Unidos da América ultrapassaram a Chinam tornando-se o país com maior número de casos registados no mundo.  

Medidas preventivas são implementadas e divulgadas regularmente à população com o objetivo de abrandar e conter a disseminação do vírus. Para além dos cuidados básicos de higiene, saúde e alimentação, a medida mais privilegiada, e a que mais destaque e ênfase tem recebido por parte do Estado, da Direção Geral da Saúde e do público em geral, é o distanciamento social. 

Manter a distância social e evitar situações de contacto com outros indivíduos é a melhor forma de prevenir a contração e a disseminação do vírus, nos últimos dias esta medida tornou-se a norma geral, com o Governo a decretar estado de emergência, implementando a quarentena de toda a população a nível nacional.  

O que significa o “estado de emergência”? 

As escolas e algumas empresas fecharam, e agora os trabalhadores, que têm meios e tipologias de trabalho que o permitam, trabalham remotamente a partir de casa. As ruas estão interditas, os acessos aos supermercados estão condicionados, os restaurantes suspenderam o atendimento ao público e trabalham em regime de entregas ao domicílio, os bancos reduziram os horários de atendimento ao balcão e favorecem o uso das suas plataformas digitais. 

A Itália já se encontra há quase um mês em isolamento, o Reino Unido começou a implementar medidas de racionamento de comida e a América “fechou as portas” para os outros países. Esta pode ser vista como uma estratégia para minimizar o impacto da COVID19 na economia global.

Portugal decretou estado de emergência na passada quarta-feira, dia 18 de março, e até à data existem 8 251 casos confirmados de infecção pelo novo coronavírus e foram registadas, até esta quarta-feira, 187 mortes em Portugal. Ao todo, 43 pessoas já recuperaram e há ainda 4 957 a aguardar resultado laboratorial. 

O estado de emergência prevê algumas restrições, como por exemplo, no que respeita ao direito deslocação e fixação, o Estado pode implementar a prática de quarentena obrigatórias em casa e o estabelecimento de perímetros sanitários, condicionando a entrada e saída em determinadas áreas.  

Quanto à propriedade ou iniciativa privada, se estritamente necessário, o Estado pode proceder à requisição civil de bens móveis e imóveis, como por exemplo fábricas, unidades de saúde privadas ou até mesmo lojas, com o objetivo de produzir bens considerados fundamentais, podendo, ainda, ordenar o encerramento de qualquer estabelecimento ou modificar o fim a que o mesmo se destina, os bens que produz, as quantidades produzidas e os preços praticados.  

Sobre os direitos dos trabalhadores o Estado pode obrigar qualquer trabalhador, quer no setor público como no privado, a apresentar-se ao serviço, e, se necessário, obrigá-los a desempenhar funções em locais, horários e condições que não constam no seu contrato. 

O direito à greve fica suspenso durante o período de estado de emergência, nomeadamente no setor da saúde ou em áreas consideradas vitais à economia. À circulação a nível internacional podem ser impostos controlos nas fronteiras de modo a impedir entradas de pessoas e bens por questões sanitárias e exigir quarentena obrigatória a quem entra no país. 

Reuniões e manifestações podem ser proibidas caso as autoridades entendam que existe alto risco de propagação do vírus, o mesmo se aplica a missas e outros encontros de carácter religioso propensos ao aumento do risco de contágio. 

Nos últimos dias foram divulgadas, pelo Governo, diversas medidas económicas para o segundo trimestre de 2020, com o objetivo de evitar uma crise económica profunda na União Europeia e mitigar o máximo possível os impactos negativos resultantes da disseminação exponencial da pandemia de coronavírus.  

Durante uma conferência, no passado dia 18 de março, Mário Centeno realçou que “é a hora de conter e tratar a doença, mas também de garantir apoio à liquidez das empresas, particularmente, pequenas e médias, e o apoio a trabalhadores e às famílias que já sentem o impacto das medidas adotadas”. Este conjunto de medidas visa apoiar a economia, os trabalhadores e as empresas, procurando assegurar a manutenção do emprego, em três áreas fundamentais: garantias públicas, sistema bancário e flexibilização das obrigações fiscais e contributivas.  

O vírus ainda não atingiu o seu pico em Portugal, portanto estas novas medidas apresentadas têm o intuito de representar “os primeiros passos de uma luta que é temporária, mas longa”. Já se prevê os impactos que a contenção implementada pode vir a ter na nossa economia e estão a ser exploradas novas formas de ajudar o país a superar esta crise e a retornar à normalidade. 

No entanto, mesmo com estas medidas preventivas, as dúvidas sobre o impacto que esta crise (COVID19) poderá ter no futuro da economia global continua a ser uma grande preocupação. Serão os apoios uma garantia de sucesso ou apenas um fator atenuador dos tempos difíceis que se avizinham? Como será a panorâmica económica pós-coronavírus? 

Com o mundo “fechado” qual será impacto do COVID19 na economia global?

Dimensão do vírus registada até à data a nível global.

Casos reportados confirmados Mortes Casos recuperados 
887 067 44 264 185 541 
Fonte: Coronavirus COVID-19 Global Cases pelo Center for Systems Science and Engineering (CSSE) na Johns Hopkins University (JHU) relativo a 01/04/2020. 

Dimensão do vírus registada até à data a nível nacional 

Casos reportados confirmados Mortes Casos recuperados 
8 251 187 43 
Fonte: Relatório de 01/04/2020 divulgado pela Direção Geral da Saúde (DGS)  

Análise Mckinsey – Impacto do COVID19 na economia global

A consultora americana McKinsey divulgou uma breve análise sobre os desenvolvimentos do COVID19 no mundo, avaliando a panorâmica geral e apresentando previsões do possível impacto que esta crise poderá representar na economia global e como é que as empresas podem responder de forma proactiva.   

Segundo a análise, intitulada de Covid-19: Briefing Note, a progressão do vírus difere bastante de país para país, foi realizada uma comparação entre quatro países, China, Coreia do Sul, Itália e Estados Unidos, e no caso destes em específico identifica uma grande diferença no que respeita à redução de casos infetados e ao aumento de novos casos, mostrando que esta resulta do plano de ação implementado em cada um.  

Na China e na Coreia do Norte as “ações recentes” como a consultora as designou, foram muito mais rápidas e rigorosas. A China implementou um regime de distanciamento social e quarentena bastante minucioso, realizou vários testes a diversas instalações e em Hubei e construiu diversos hospitais improvisados ​​de modo a aumentar, e assegurar, a capacidade de resposta do setor da saúde.  

A Coreia do Sul, por sua vez, demonstrou a mesma brevidade de reação e investiu numa forte preparação e num rápido processo de aprovação de regulamentação para testes, desenvolveu sistemas de diagnósticos alternativos e mais rápidos, como por exemplo, o diagnóstico drive-through, e mobilizou os recursos necessários para assegurar a disponibilidade de hospitalização para casos de menor gravidade de modo a diminuir a disseminação do vírus.  

Em contraste, outros países, como por exemplo, a Itália foram um pouco mais benevolentes e desenvolveram um plano de ação mais gradual. Face aos primeiros indícios de surto do vírus, a Itália, concentrou todos os esforços no norte do país, e só mais tarde, em resposta a aumento exponencial de casos, é que os mesmos se estenderam ao resto do país, uma vez num contexto já bastante caótico, é que foi decretado o cancelamento de grandes aglomerados de pessoas e o encerramento de escolas e universidades em todo o país.  

Já os Estados Unidos, começaram por apenas restringir a entrada de voos na América vindos da Europa, reunindo mais tarde o Congresso com o objetivo de providenciar testes gratuitos, até à data 24 dos 50 estados americanos declararam estado de emergência e implementaram um conjunto de medidas, incluindo o encerramento de escolas, a proibição de grandes aglomerados de pessoas e planos de testes em grande escala.  

Em geral a população mais envelhecida, entre os 60 e os 80 anos, representam o grupo de maior risco embora tenham sido registadas algumas variações entre países. A Itália e a China apresentam uma percentagem de 52% e 44%, respetivamente, de indivíduos infetados com idades entre os 20 e os 49 anos, em contraste com a Coreia do Sul, que apresenta para a mesma faixa etária uma percentagem de 24%. O número de casos de infetados, que resulta em morte, consiste, maioritariamente, em indivíduos da faixa etária com idades acima dos 60 anos.  

Possíveis cenários  

Resumindo a situação atual, os países ou regiões que registaram um crescimento exponencial do número de casos desde do início do surto, como a China e a Coreia do Sul, apresentam agora um declínio regular do número de infetados, em oposição, aos países fora da Ásia que aparentam ter um longo caminho pela frente face ao aumento exponencial de casos, como por exemplo na Europa e nos Estados Unidos, que se registou nos últimos dias.  

A McKinsey apresenta dois cenários a nível epidemiológico: recuperação atrasada ou contração prolongada, e os impactos a nível económico para cada um.  

Cenário de recuperação atrasada  

No primeiro cenário, prevê-se que países como a China e outros países do Leste Asiático continuem a recuperar ao ritmo atual e que consigam controlar o vírus até ao final do primeiro ou segundo trimestre de 2020. Por outro lado, no caso da Europa e dos Estados Unidos, o mais provável é que o número de casos continua a aumentar, rapidamente, até meados de abril.  

No caso de recuperação atrasada, a nível económico prevê-se a China e os países do Leste Asiático embora mostrem sinais de recuperação, continuem com o seu comércio bastante afetado, uma vez que a Europa e os Estados Unidos se vão encontrar, ainda, em regime de quarentena, com restrições de deslocação e medidas de distanciamento social que terão influência nos gastos por parte dos consumidores e investimentos em negócios durante 2020.  

Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), esta pandemia poderá traduzir-se na eliminação de 25 milhões de postos de trabalho em todo o mundo, sendo que esta perda de emprego provocará, simultaneamente, uma perda de rendimento dos trabalhadores, com um impacto negativo agregado de mais de quase 800 mil milhões de euros. 

Em suma, a pandemia COVID19 é um duro golpe e que tem um grande impacto na economia global.

Cenário de contração prolongada

No segundo cenário, a China e os países do Leste Asiático recorrem num ciclo de infeção ao retomar a atividade económica prolongando o processo de contração.  

Neste caso, prevê-se que a China e os países do Leste Asiático sofram um double-dip slowdown, isto é, o registo de crescimento do produto interno bruto (PIB) volta a negativo depois de um trimestre ou dois de crescimento positivo, refere-se a uma recessão seguida por uma breve recuperação, de curta duração, seguida por outra recessão. Os países da Europa e os Estados Unidos irão vivenciar uma queda na procura por bens e serviços por parte dos consumidores e os negócios passarão por fortes crises em 2020. 

Sob outra perspetiva, o Banco Central Europeu prevê uma forte baixa no crescimento para a Zona Euro 

O BCE prevê uma descida no crescimento para este ano e para o próximo da Zona Euro, sendo que este ano o PIB irá crescer 0,8%, em contraste com as anteriores previsões de 1,1%, e no próximo ano de 2021 o aumento será de 1,3%, ao contrário dos anteriores 1,4%, sendo que só em 2022 é que se prevê que seja atingido este último valor. Estas previsões baixas, segundo o Banco Central, devem-se ao impacto da pandemia Covid-19.  

O impacto económico na economia global, resultante da COVID19, vai ser muito forte, com significativas recessões no PIB na maioria das principais economias, em 2020, e uma recuperação muito lenta, a começar apenas no segundo trimestre de 2021. A verdadeira extensão dos impactos na economia ainda é difícil de avaliar com exatidão, sendo este artigo uma previsão de possíveis situações, com base em análises recentes, que podem vir a desenvolverem-se.