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Enquadramento

A União Europeia (UE) tem assumido um papel importante no combate à pandemia por COVID-19 e à consequente recessão económica.

Desde março de 2020 foram adotadas diversas medidas a nível europeu de resposta à crise pandémica, tendo a mais emblemática sido o acordo sobre o Plano de Recuperação para a Europa, alcançado após um longo processo de negociações.

Na reunião do Conselho Europeu de dezembro de 2020 foi aprovado um pacote global de 1824,3 mil M€, disponível a partir de 2021 e executável até 2029. Este pacote visa também dar resposta aos desafios futuros da resiliência, transição digital e climática, combinando duas vertentes que irão funcionar em conjunto:

  1. O Quadro Financeiro Plurianual da UE 2021-2027, com um montante total de 1074,3 mil M€ a executar até final de 2029, dos quais 29,8 mil M€ para Portugal;
  2. O Next Generation EU, um instrumento temporário no valor de 750 mil M€ (dos quais 390 mil M€ em subvenções a fundo perdido e 360 mil M€ em empréstimos concedidos), que irá impulsionar os recursos disponíveis da UE entre 2021 e 2026, com o objetivo de apoiar sobretudo a recuperação e a resiliência das economias dos Estados-Membros. Este instrumento constitui um marco na história da EU, na medida em que será totalmente assegurado através de emissão de dívida pela Comissão Europeia nos mercados de capitais em nome de todos os estados-membros.

A FI Group pretende através deste inquérito perceber as expectativas dos seus clientes e parceiros relativamente a estes apoios, principalmente num momento marcado pela crise política e dissolução do atual governo.

Neste sentido, A FI Group através de um questionário online auscultou o tecido empresarial português sobre o Acordo Parceria Portugal 2030 que está atualmente em consulta publica. O Inquérito foi realizado entre 17 e 25 de novembro e permitiu a auscultação a 104 entidades.

Apresentação e análise dos resultados

Do ponto de vista territorial, efetuou-se uma análise por NUTS II (Norte, Centro, Lisboa e Vale do Tejo, Alentejo e Algarve) e as duas NUTS I (Açores e Madeira). Verifica-se que a maioria das empresas que responderam a este questionário se localizam nas regiões Norte, Centro e LVT.

Gráfico 1 – Região de localização da empresa

Do universo de 104 empresas, 45 pertencem à região Norte (43,3%), 32 são da região de Lisboa (30,8%), 19 pertencem à região Centro (18,3%), totalizando a grande maioria das respostas (92,4%). Relativamente às restantes regiões, obtivemos 3 respostas da NUTS Alentejo (2,9%) e o mesmo número para o Algarve (2,9%), na região da Madeira tivemos a participação de 2 empresas (1,9%).

Do ponto de vista do setor de atividade das empresas, as respostas foram enquadradas mediante o CAE principal das mesmas, por forma a sinalizar as prioridades de interesse a este nível. Este ponto é importante pois permitirá perceber quais os setores de atividade com maior interesse em beneficiar dos apoios provenientes do Portugal 2030.

Assim, dos inquiridos temos a seguinte distribuição em termos de setores:

Gráfico 2 – Setor de atividade

Os 5 principais setores, que totalizam 82,7%, são: indústria transformadora, consultoria científica e técnica, comércio por grosso, alojamento restauração e similares e atividades imobiliárias. Sendo que o setor com maior representatividade, 39,4%, é o da indústria transformadora.

As empresas foram também questionadas quanto à sua tipologia, este é um fator de grande importância para o acesso a financiamento, sendo que o enquadramento nos diferentes avisos pode estar condicionado à dimensão da empresa.

Das empresas que responderam ao questionário, 34,6% são pequenas empresas, 26,9% são médias empresas, 23,1% são microempresas e 10,6% são grandes empresas. No que respeita a outras tipologias, 3,8% dos inquiridos são Small Mid Cap e cerca de 1% são outras entidades como universidades e institutos.

No sentido de aferir o impacto ao nível do setor transacionável e exportador, foi questionado o caracter exportador das empresas. A esta pergunta 64,4% das empresas respondeu que tem atividade de exportação e 35,6% respondeu que não tem atividade de exportação.

De forma a avaliar o histórico de incentivos no âmbito do Portugal 2020, as empresas foram questionadas sobre se usufruíram de algum apoio deste programa, 53% respondeu que sim e 47% respondeu que não. Verifica-se, portanto, que existe uma elevada percentagem de empresas que não beneficiou de nenhum apoio relativo ao anterior programa, representando quase metade dos inquiridos.

Por sua vez, quando questionados sobre se pretendem fazer investimentos nos próximos 2/3 anos, 97% dos inquiridos respondeu afirmativamente. Existe, assim, um forte interesse das empresas em realizar investimento, apesar da conjuntura vivida no país, o que é um sinal positivo e que pode contribuir para a criação de novas capacidades produtivas, bem como a criação de emprego.

Quanto às áreas nas quais as empresas estão interessadas em investir obteve-se a seguinte distribuição:

Gráfico 3 – Áreas de investimento preferenciais

Verifica-se que os principais interesses de investimento das empresas são na investigação e desenvolvimento e inovação (14,9%), investimento produtivo (14,6%) e digitalização (14,6%). Destaca-se também, o interesse das empresas na internacionalização (12,0%) e qualificação dos recursos humanos (11,5%).

Esta motivação para apostar na inovação e digitalização revela que as empresas se encontram alinhadas com os objetivos nacionais nesta matéria.

No âmbito da internacionalização, importa referir que 27% das empresas que mencionaram não ter atividade de exportação têm intenção em investir na internacionalização do seu negócio. Este fator mostra que as empresas querem expandir os seus negócios e alcançar novos territórios, para aumentar o seu crescimento e contribuir consequentemente para o crescimento da economia e da visibilidade do país.

Gráfico 4 – Montante que as empresas pretendem investir nos próximos anos

No que respeita ao montante que as empresas pretendem investir nos próximos anos, 34,7% das empresas responderam que não têm um valor definido. Por outro lado, 24,8% responderam que pretendem investir até 1 M€, e apenas 7,9% pretende investir mais de 10 M€.

Gráfico 5 – Espera poder beneficiar dos apoios dos fundos europeus a que Portugal terá acesso na próxima década?

Quando questionados sobre se pretendem beneficiar dos fundos europeus, a que Portugal terá acesso, para apoiar os investimentos planeados, 57,4% das empresas respondeu que tem interesse em beneficiar dos apoios provenientes do Portugal 2030 e do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), enquanto 29,7% referiu que apenas tem interesse nos apoios do Portugal 2030.

Das empresas que demonstraram interesse em efetuar investimentos nos próximos anos, 3% referiu que não espera beneficiar de qualquer apoio. Dos motivos mencionados, destacam-se a forte componente burocrática dos processos de candidatura, o desconhecimento de como vai decorrer o próximo programa e a falta de clareza dos processos.

Importa salientar que, das entidades que afirmaram ter beneficiado de apoios do Portugal 2020 (54 empresas), 98% manifestou interesse em efetuar investimentos nos próximos anos, e 67% revelou que espera obter apoios do PRR e do Portugal 2030 para alavancar esses investimentos. Apenas 4% destas empresas, revelou que espera obter apoios exclusivamente do PRR, o que demonstra a descrença no plano relativamente ao apoio às empresas.

É interessante também avaliar que, das empresas que não tiveram anteriormente nenhum apoio para financiar os seus investimentos, 47% indicou ter intenção de beneficiar de apoios PRR e do Portugal 2030 para os investimentos projetados para os próximos anos, enquanto 34% mostrou unicamente interesse nos apoios do Portugal 2030. Isto demonstra que os inquiridos têm alguma esperança no novo programa e esperam que este possa trazer melhorias relativamente ao anterior.

De forma a avaliar qual a opinião das empresas sobre o PRR, que já se encontra em curso com diversas iniciativas lançadas, estas foram questionadas sobre de que forma este plano vai de encontro às suas expectativas iniciais. As respostas são maioritariamente negativas, 20,2% das empresas referem que o plano não corresponde com as expectativas, enquanto apenas 1,0% revela que o PRR está completamente de acordo com as expectativas. Nesta análise verifica-se que 87 empresas são detratoras, 16 são passivas e 1 é promotora, o que demonstra que a maioria das empresas não está satisfeita com o PRR, pois este não corresponde às expectativas e necessidades das empresas.

Na resposta à questão “O Portugal 2030 está a ser construído. O que deveria/espera ver contemplado? Que sugestões e melhorias considera importantes existirem face ao Portugal 2020” sumarizam-se as respostas mais recorrentes:

  • Reduzir a burocracia associada às candidaturas, facilitar os processos de reembolso, bem como simplificar e tornar todo o processo mais claro para as empresas;
  • Maior celeridade na análise das candidaturas e dos pedidos de pagamento, pois as empresas necessitam de respostas mais rápidas que vão de encontro com as suas necessidades imediatas;
  • Dar acesso a apoios a algumas geografias (como por exemplo a península de Setúbal) que neste momento não conseguem aceder aos mesmos;
  • Aumentar o apoio às micro, pequenas e médias empresas tornando os critérios de avaliação mais realistas e de acordo com os interesses das empresas;
  • Reduzir as restrições nas condições de acesso aos apoios, ou seja, nos critérios de elegibilidade;
  • Apoiar a internacionalização, a descarbonização, a digitalização, a formação profissional e qualificação;
  • As PME necessitam muitas vezes de equipamento que permita melhorar a sua produtividade e qualidade, contudo a maioria dos avisos envolve valores de investimento muito avultados e obrigam à inovação que muitas vezes não é aplicável a todos os tipos de indústria. Neste sentido, importa adequar os apoios à realidade das empresas nacionais;
  • Maior alinhamento dos benefícios com clusters ou indústrias e não apenas com a localização geográfica.

Principais conclusões

O tecido empresarial tem um papel crucial para a retoma da economia nacional, assim é essencial que tenham um maior acesso a apoios para executarem os seus investimentos. Deste modo, é necessário que os avisos sejam mais flexíveis, menos burocráticos e mais adequados à realidade das empresas nacionais. Existe uma grande percentagem de empresas que não obteve qualquer apoio do programa Portugal 2020, espera-se, contudo, que esta realidade mude com o novo programa sendo que uma grande percentagem dos inquiridos revelou ter intenção de beneficiar de apoios para executar os seus investimentos nos próximos anos.

Em suma, da análise efetuada neste inquérito pode-se concluir que:

  • Apesar de existir uma provável relação entre o networking da FI-Group e os resultados territoriais, verifica-se que a maioria das empresas se situa nas NUTS II Norte, Centro e LVT totalizando 92,4% de resultados de interesse;
  • Existem 5 setores prioritários, nomeadamente: indústria transformadora, consultoria científica e técnica, comércio por grosso, alojamento restauração e similares e atividades imobiliárias;
  • A maioria dos inquiridos são micro, pequenas e médias empresas sendo esta a realidade empresarial nacional;
  • Existe ainda uma grande percentagem de empresas com ligação exclusiva ao mercado interno, 35,6% dos inquiridos;
  • Uma grande percentagem de empresas, 47%, revelou não ter histórico de candidaturas a PT2020, enquanto 53% sinalizaram ter usufruído de apoios;
  • 97% dos inquiridos (101 empresas) demonstram ter interesse em investir nos próximos 2 a 3 anos;
  • Os maiores interesses de investimento das empresas são na investigação e desenvolvimento e inovação, investimento produtivo e digitalização;
  • Para a realização dos investimentos nos próximos anos, 57,4% das empresas tem interesse em beneficiar dos apoios provenientes quer do Portugal 2030 como do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR);

Apenas 1% dos inquiridos revelou que o PRR está de acordo com as suas expectativas iniciais.

Ficha Técnica

Para os resultados obtidos, tiveram-se em linha de conta as respostas válidas, de 104 empresas, assentes em questionário efetuado em Microsoft Forms e enviado à base de contactos da FI Group e divulgado via Linkedin, maximizando a interação com as empresas, através do abrangente Networking de contactos, entre todos os colaboradores da FI Group e as suas conexões associadas.

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