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A mobilidade sustentável consiste no recurso a meios de transporte menos consumidores de energia que, por consequência, poluem menos por quilómetro percorrido. A definição corresponde a um modelo de organização do transporte humano com o mínimo impacto ambiental, e que satisfaça as necessidades da sociedade de circular livremente, de ter acesso, comunicar, negociar e estabelecer relações sem sacrificar outros recursos ecológicos ou humanos essenciais.

Qual o cenário atual do setor dos transportes?

A forma como a nossa sociedade consome recursos, planeia cidades, gere resíduos, e concebe sistemas de transporte tem vindo a aumentar a pegada de carbono das nossas atividades de transporte, sendo o atual modelo de mobilidade totalmente insustentável. O setor dos transportes foi responsável por cerca de 1/4 das emissões globais em 2018, que totalizaram 8 mil milhões de toneladas de CO₂.

Global CO₂ emissions from transport Image: Our World in Data

O cenário crítico do carro

Cerca de 74,5% das emissões dos transportes provêm dos veículos rodoviários, tornando absolutamente necessário atuar com a maior urgência na redução drástica destas emissões, trabalho que tem vindo a ser efetuado nos últimos anos através da eletrificação do parque automóvel e de outras tecnologias.

Ainda que diversas marcas tenham vindo a anunciar que vão ser 100% elétricas até 2030, aliado à intenção da UE de proibir a partir de 2035 a comercialização de novos automóveis movidos a combustíveis fósseis, estima-se que haverá 1,8 mil milhões de carros na estrada até 2030, em que apenas 8% serão elétricos. Os motores de combustão interna continuarão a ser essenciais para os sistemas de transporte, sendo necessário desenvolver soluções que permitam reduzir as emissões associadas aos mesmos.

A UE pretende também que híbridos plug-in sejam considerados veículos de baixas emissões somente até 2030, podendo também ser alvo de estratégias transformadoras que compensem o fator ecológico que estes modelos têm falhado em apresentar.

Combustão interna 2.0

Uma das soluções neste sentido é a substituição direta de combustíveis fósseis por biocombustíveis, alternativa totalmente viável e pronta a implementar no setor automóvel, não sendo necessária a aquisição de um veículo novo. Só em 2020, o biocombustível avançado produzido a nível nacional permitiu evitar a emissão de 25 mil toneladas de CO2.

Produzidos a partir de resíduos, como óleos alimentares usados, gorduras animais, borras de café, entre outros, os biocombustíveis diminuem não só a pegada carbónica como reduzem a dependência energética de Portugal, promovendo ainda a economia circular. O recurso a esta fonte de energia significará uma poupança de pelo menos 83% de emissões em relação aos combustíveis fósseis.

A transição neste setor será fundamental para cumprir com os objetivos traçados no âmbito do Green Deal, que ambiciona reduzir as emissões de CO₂ em 55% até 2030 e atingir a neutralidade carbónica em 2050.

Eletrificação dos transportes

Para o cumprimento das metas de mobilidade do futuro, a eletrificação é já hoje um elemento central, apresentando tecnologias que permitem uma implementação e impacte imediatos em termos ambientais e energéticos. Diversos meios de transporte têm sido eletrificados, desde bicicletas ou scooters até grandes navios e aviões, sendo que o maior foco tem sido, como é sabido, no setor rodoviário.

No mercado automóvel, estima-se que, em 2019, quase todos os países europeus duplicaram as vendas de carros elétricos. Portugal surge no Top 5 na percentagem de veículos eletrificados, a par da Alemanha, com 13,5% destes veículos nas vendas de 2020. O desenvolvimento tecnológico, o aparecimento de novos modelos e o aumento da autonomia das baterias foram fulcrais para o registo deste aumento.

O crescimento da infraestrutura associada tem sido também um fator fundamental para uma eletrificação concreta e para o incremento da compra e utilização de veículos desta natureza. Portugal possui um excelente registo neste domínio, com uma média nacional de 14,9 postos de carregamento elétrico por cada 100 kms de estrada, a 4ª melhor da UE.

É imperativo que este esforço seja continuado, dado que, até 2025, cerca de 1 milhão de estações públicas de recarga e reabastecimento serão necessárias para alimentar os 13 milhões de veículos com emissões nulas e baixas previstas nas estradas europeias.

No mercado de aeronaves, o desenvolvimento de uma nova geração de motores elétricos potentes e leves promete reduzir as cerca de 1 bilião de toneladas de CO2 emitidas por este meio de transporte em 2019, 2,5% das emissões globais. Além dos aviões comerciais de emissões nulas, encontram-se também em desenvolvimento novos tipos de veículos aéreos que reinventem a mobilidade neste meio, de forma a reduzir o tráfego nas já congestionadas infra-estruturas terrestres.

A eletrificação com recurso a carregamento via rede elétrica e baterias mais convencionais não será a única via da mudança ecológica, nomeadamente devido ao alto consumo de metais na produção das baterias e pela reciclagem das mesmas, que é ainda um desafio. O futuro da mobilidade é, certamente, mais do que elétrico, mas quais são os outros caminhos a seguir?

A aposta no hidrogénio e gases renováveis

Uma das alternativas aos elétricos convencionais é a utilização de hidrogénio, no qual se reconhece imenso potencial para a concretização da estratégia de mobilidade sustentável. Esta molécula, assim como outros gases renováveis, desempenharão um papel fundamental num futuro de energia limpa, segura e acessível, através do desenvolvimento de tecnologias de pilha/célula de hidrogénio.

No caso do automóvel, os veículos movidos a hidrogénio possuem uma bateria menos potente e de tamanho reduzido, quando comparada com os carros elétricos, suficiente para auxiliar o arranque e outros momentos em que é exigido ao automóvel maiores níveis de potência. Estes veículos possuem ainda uma assinalável ação purificadora do ar, ao emitirem vapor de água, o que tem dado origem a anúncios curiosos.

É ainda de realçar o carregamento recorde deste tipo de veículos, permitindo uma autonomia de mais de 600 km com apenas 5 minutos de carregamento, um número que se equipara ao tempo de abastecimento convencional e que contrasta com os 30 a 40 minutos necessários, na melhor das hipóteses, para carregar um carro elétrico.

Além do caso rodoviário, existem ainda projetos em desenvolvimento para testar o uso de hidrogénio para mover navios e comboios europeus a células de hidrogénio, pretendendo-se com estes últimos substituir as cerca de 5 mil composições movidas a diesel ainda em funcionamento em vias não eletrificadas. Existem, inclusive, 2 projetos desta natureza em Portugal, dinamizados pela CP e pela IP.

De acordo com o Hydrogen Tracking Report, o hidrogénio está a ter um crescimento sem precedentes, surgindo novos projetos em todo o mundo, em várias frentes, alavancados tanto pelo esforço tecnológico como também por decisões políticas nesse sentido. Urge desenvolver e escalar tecnologias de extração, garantir a segurança do transporte e reserva da molécula e reduzir os custos de implementação, de forma a utilizar o hidrogénio de forma generalizada.

A nível nacional, foi elaborada a “Estratégia Nacional para o Hidrogénio”, que visa “promover uma política industrial em torno de hidrogénio e gases renováveis, que se baseia na definição de um conjunto de políticas públicas que orientam, coordenam e mobilizam investimentos públicos e privados em projetos nas áreas de produção, armazenamento, transporte e consumo de gases renováveis em Portugal”.

Aliado a esta estratégia, a componente C14 do PRR, “Hidrogénio e Renováveis”, irá também “promover a (…) produção de hidrogénio e de outros gases de origem renovável e (…) fomentar o crescimento económico e o emprego (…), bem como a investigação e o desenvolvimento, acelerando o progresso tecnológico”. Só para o hidrogénio e gases renováveis, prevê-se um investimento de 185M de €.

A complementaridade é peça-chave no desenho de um sistema de transporte inteligente, competitivo, seguro e acessível, que satisfaça as necessidades das populações em termos de viagens, preserve o ambiente e a saúde humana, minimize os custos de acesso e de infraestruturas e garanta a viabilidade dos sistemas de transporte a longo prazo.

A importância do transporte público e coletivo

Neste domínio, o transporte público desempenhará um papel fundamental, visto ser espinha dorsal da mobilidade sustentável em áreas de alta densidade, nas quais a poluição e o tráfego são particularmente nocivos.

O transporte público necessita de acelerar a sua evolução centrando-se nos utilizadores, em primeiro lugar, proporcionando-lhes alternativas económicas, acessíveis e ecológicas. O desenho de um sistema de transporte coletivo será um dos pilares na estratégia nacional para a descarbonização.

A componente C15 do PRR, intitulada Mobilidade Sustentável, focar-se-á precisamente neste domínio, pretendendo “assegurar o desenvolvimento de projetos (…) que promovam o reforço e a utilização crescente do transporte público com a consequente redução da dependência do transporte individual rodoviário (…), e a descarbonização do setor dos transportes, e que tenham um importante contributo para a recuperação dos efeitos económicos e sociais”.

Além da reforma do sistema de transportes e dos investimento previstos na renovação de frotas, encontra-se também delineada a expansão da rede de metro de Lisboa e do Porto, a construção do metro ligeiro de superfície Odivelas-Loures e outras medidas para a descarbonização dos transportes públicos, perfazendo um investimento de mais de 900M de € nesta componente.

Um dos projetos já previstos neste sentido, ainda que fora do âmbito da C15 do PRR, por estar já contratualizado, é a reestruturação da frota da Transtejo, com a aquisição de 10 navios de propulsão elétrica, com consumos energéticos inferiores aos navios atuais e sem emissões de gases de efeito estufa, que deverão começar a chegar já em meados de 2022.

O Governo português compromete-se a efetuar um investimento de 938M de € no setor de transportes públicos já em 2022, conforme previsto no OE, com vista a concretizar um conjunto de obras e investimentos que aumentem a capacitação, abrangência e nível tecnológico dos nosso sistema de transporte público, nomeadamente nos grandes centros urbanos.

Um dos ramos da estratégia de mobilidade, em termos de transporte público, deverá também passar por uma transferência das viagens de curta e média distância a nível europeu dos setores aéreo e rodoviário para o ferroviário, sendo os comboios de alta velocidade e noturnos uma alternativa sustentável aos voos baratos com um alcance de 1000 km.

O sector ferroviário pretende duplicar a sua quota no tráfego de passageiros da Europa, atingindo os 15% até 2030. Para contribuir para o alcance desta quota, Portugal irá capacitar fortemente a infraestrutura ferroviária nacional, estando previsto um pacote de 10,5 mil milhões de euros de investimento publico até 2030.

A evolução do transporte público deverá contribuir para a implementação de plataformas de transporte multimodal e para uma Rede Transeuropeia dessa natureza, sustentável, inteligente e rápida, que permita combinar vários meios de transporte ao longo de uma viagem de uma forma prática e eficaz, aumentando assim a utilização de meios de transporte sustentáveis.

Mobilidade Partilhada e Conectada

Aliado ao transporte coletivo, a conceção de soluções de mobilidade partilhada será também um vetor importante para a transição sustentável, desenvolvendo alternativas viáveis que façam os cidadãos optarem pelas mesmas ao invés do transporte individual.

Soluções de mobilidade através de plataformas partilhadas (bicicletas, trotinetes, e-scooter, etc.) possuem vantagens inegáveis, nomeadamente a redução significativa de trânsito, a redução de acidentes rodoviários, a diminuição do uso de veículos privados e o aumento do espaço urbano, derivado particularmente da redução de lugares de estacionamento.

Estas soluções deverão ser articuladas com o sistema de transporte, através do desenho de plataformas e aplicativos que integrem serviços de micro-mobilidade com transporte público, assim como hubs inteligentes de transportes onde se concentram diferentes modos de transporte partilhado, alternativos aos automóveis.

A melhoria da eficiência em todo o sistema de transporte é crucial. As tecnologias digitais facilitadoras de uma mobilidade automatizada e sistemas inteligentes de gestão de tráfego, como novos serviços de Mobility as a Service (MaaS), ajudarão à eficiência de todo o sistema, tornando ao mesmo tempo os transportes mais limpos e as cidades mais inteligentes.

Planeamento Urbano Inteligente

Toda esta estratégia terá de ser sustentada num planeamento urbano inteligente, claro e alinhado com a estratégia de mobilidade sustentável. O desenho das cidades e das respetivas infraestruturas deverá permitir uma fácil integração e implementação de soluções de mobilidade ecológica, dando prioridade a estas e não ao transporte convencional.

Estima-se que cerca de 70% da população mundial viverá em zonas urbanas em 2050, pelo que a definição de um planeamento urbano que combine medidas inovadoras para abordar a qualidade do ar, as emissões, o congestionamento urbano e o ruído ganha uma relevância ainda maior.

O crescimento das cidades terá de privilegiar a qualidade de vida dos cidadãos, priorizando o ambiente urbano e os meios de transporte inteligentes e ecológicos, nomeadamente o transporte público. As tecnologias digitais, na ótica de smart cities, darão um contributo essencial nesse sentido.

A pandemia teve um impacte significativo na redução de poluentes na atmosfera, tendo sido registada uma diminuição de 8% das emissões mundiais de dióxido de carbono em 2020, em comparação com 2019.

Devemos encontrar formas inovadoras de capitalizar estes efeitos positivos nas nossas cidades, como a preservação da tendência do maior uso da bicicleta para trajetos curtos, assim como das deslocações a pé, que registaram um grande crescimento na altura de maior gravidade pandémica.

Dentro do planeamento urbano, a definição de zonas de coexistência e a revisão dos limites de velocidade desempenhará um papel central, existindo já diversas cidades europeias com limite de 30 km/h, como Paris, como forma de reduzir não só a poluição como também os acidentes rodoviários.

É um facto que é nas cidades que a poluição é mais intensa, particularmente nas grandes metrópoles, mas este desenho urbano terá também de ter em consideração zonas menos habitadas, de forma a ter um sistema mais abrangente e homogéneo.

Unir esforços

Para a concretização de toda esta estratégia, é da maior importância articular as diferentes entidades estatais e governamentais, assim como os cidadãos e instituições empresariais e não empresariais. Terá de existir um contributo claro do Sistema Científico e Tecnológico Nacional (SCTN) na progressão tecnológica que é ainda necessária realizar para atingir a maturidade necessária das soluções idealizadas e para arquitetar novas.

Além dos fundos previstos no âmbito do PRR e de outros fundos nacionais e comunitários, que irão contribuir de forma clara para a evolução ecológica e digital do sistema de transportes, assim como investimentos de vertente pública ou privada, comunidades como a EIT Urban Mobility, uma comunidade europeia de inovação criada em 2019 na área de mobilidade, serão também importantes na transição para a mobilidade sustentável, segura, acessível e inclusiva, que torne as cidades europeias mais habitáveis.

Será também fundamental que os mercados acompanhem estas tendências, incrementando o caráter atrativo de soluções móveis diversificadas e ecológicas através da definição de preços competitivos e acessíveis, fazendo variar tarifas de acordo com a % de emissões emitidas por cada meio de transporte, por exemplo.

Eventos como o Portugal Railway Summit 2021, onde se discutem ideias, experiências e novas visões de inovação para todo o setor ferroviário, ou o Velo-City, a maior conferência mundial de mobilidade em bicicleta, que ocorreu em Portugal este ano, são também potenciadores deste ecossistema de mobilidade sustentável, através da partilha de estratégias e de conhecimento, devendo ser organizados, apoiados e promovidos de forma proativa.

Não menos importante, terá de ser continuado o trabalho de consciencialização ambiental junto das populações, de forma a educar e mudar mentalidades, assim como fortalecido o músculo político, de forma a encarar esta estratégia de forma clara e promover uma mobilidade sustentável que seja capaz de contribuir, já hoje, para o cumprimento das metas de descarbonização do país e do continente.

Está nas nossas mãos evoluir o sistema de transportes nacional e europeu, construindo um futuro mais móvel, limpo e sustentável. Há que realizar o esforço tecnológico, institucional e social que permita, de facto, acelerar e cumprir com esta estratégia, para o bem do planeta e de todos nós.


SOBRE O AUTOR

Diogo Sabino, Consultor Técnico na FI Portugal, é mestre em Engenharia de Micro e Nanotecnologias pela Universidade Nova de Lisboa e tem um enorme interesse por diversas áreas tecnológicas.

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