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O setor automóvel, apresenta-se como uma das indústrias mundiais com maior incorporação de I&D nos seus produtos, processos industriais e modelos de gestão.

Com efeito, ao longo dos anos, cada marca de automóveis tem vindo a procurar responder de forma mais eficaz ao padrão de desenvolvimento em cada época, de acordo com as exigências emergentes por parte do consumidor. Com efeito, esta indústria já teve inúmeros contextos de desenvolvimento específicos, a saber:

  • Inicio do século XX: criação de linha de montagem e produção em massa e industrialização (exemplo, Ford Model T);
  • Década de 60 do seculo XX até a atualidade: desenvolvimento orientado para a segurança, com inclusão de cintos de segurança, airbags, locais de absorção de impacto, e mais ultimamente, sistemas de controlo de tração e estabilidade, soluções de paragem ativa entre outros);
  • A partir da década de 80: conceção de soluções ambientalmente mais sustentáveis, por via da adoção inicialmente de motores com combustível sem chumbo, inclusão de normas de emissões de carbono e outros produtos, cada vez mais restritivas, adoção de Addblue, Filtro de Particulas, e mais recentemente, eletrificação e hibridização;
  • Final dos anos 90: promoção de digitalização dos controlos do veículo e mais recentemente, de toda a condução por via da adoção de conceitos de condução autónoma, assentes em tecnologias de IoT, Inteligencia Artificial e Machine Learning.

Industrialização de processos (paradigma do século XXI)

No que se refere a esta vertente de desenvolvimento tecnológico, é um facto que a economia nacional não dispões de um número vasto de linhas de montagem de elevado débito, nos quais podemos referir a VW Autoeuropa (associada ao fabrico do SUV T-ROC, e monovolumes VW Sharan e Seat Alhambra), a PSA Mangualde (Peugeot Partner e Rifter, Citroen Berlingo e Opel Combo), associando-se linhas mais pequenas como a Mitsubishi Tramagal (modelo Fuso), e Toyota Ovar (modelo Land Cruiser).
De referir ainda, a proximidade de Portugal à importante fábrica da PSA em Vigo, que produz inúmeros modelos do grupo, com uma dimensão similar à Autoeuropa, com importante impacto em inúmeras empresas nacionais da região Norte e Centro.
Porém, Portugal dispões de um conjunto alargado de fábricas de componentes, sendo um importante player europeu em diversos domínios de produção com grupos internacionais (Bosch, Faurécia, Renault, Yazaki), e nacionais (ERT Têxteis, Sodecia).
Efetivamente, estes importantes players associados à montagem e à produção de componentes, tem promovido o desenvolvimento por efeito de arrastamento de uma vasta gama de empresas, que promovem a produção de equipamentos industriais dotados das mais avançadas vertentes associadas ao setor:

  • Rastreabilidade de processos, no sentido de garantir total controlo da cadeia de produção;
  • Adoção de tecnologias de rastreio de erros ativas: sistemas de visão, deteção a laser, adoção de dispositivos RFID;
  • Inclusão de protocolos de comunicação associados à Indústria 4.0 (Profinet, ligação Cloud, etc.).

O paradigma da segurança na indústria de componentes nacional

Com efeito, uma segunda vertente de desenvolvimento, já citada, prende-se com o desenvolvimento de soluções orientadas para a segurança. Neste sentido, apesar de não existir uma orientação específica para esta vertente, é um facto que este fator está presente em todos os componentes produzidos.

Neste contexto, uma das áreas em que existe uma forte orientação nacional, é a indústria de têxteis técnicos e interiores, exigindo sempre o desenvolvimento de novos materiais e conceitos, assentes em tecnologias passíveis de inclusão de airbag’s, permitindo a sua insuflação eficaz.
Paralelamente, o facto de Portugal possuir fábricas de produção de bancos (nomeadamente no grupo Faurécia), é crucial cumprir com as normas e mais recentes tecnologias de construção, no sentido de garantir a melhor resposta técnica em contexto de colisão.

Soluções ambientalmente sustentáveis e promoção da eletrificação


Pese embora esta área estar cada vez mais em desenvolvimento acelerado, é um facto que existe um esforço concertado desde há muitos anos, nomeadamente ao nível da adoção de combustíveis sem chumbo e catalisadores, desde os anos 80 e 90. Com efeito, Portugal dispõe de um conjunto de fábricas orientadas para a produção de linhas de escape.

Indústrias como a Faurécia, a Veneporte, entre outras, tem de ter em linha de conta, o design e adoção de sistemas de catalização e filtros de partículas (inicialmente em veículos diesel, e mais recentemente também em veículos a gasolina), promovendo processos químicos passiveis de reduzir a pegada ambiental dos gases de escapes.

No que se refere à eletrificação de veículos, e um facto que, pela sua dimensão, a indústria nacional procura apostar em áreas de nicho essenciais, como sejam as cablagens para veículos elétricos (patente na atual orientação produtiva da fábrica da Yazaki em Ovar), ou pelo projeto Eco Camões da indústria de carroçamento de veículos de combate a incêndio, a Jacinto, que propõe um veículo totalmente eletrificado.

De ressalvar que, também ao nível da adoção de tecnologias de locomoção, atualmente são montados em território nacional, veículos com emissões 0, como sejam os modelos de Autocarro da Caetano BUS totalmente funcionais a Hidrogénio, ou a Mitsubishi Fuso eCanter. Importa frisas que em Vigo (fábrica com elevada ligação a Portugal), já são atualmente produzidos veículos elétricos e híbridos.

Porem, não tanto ao nível da produção de modelos para consumidor final, mas sim na produção de baterias, que Portugal tem uma palavra a dizer, nomeadamente, pelo facto de ser o país da Europa com maiores reservas de Lítio, conhecido como Ouro Branco, ou Petróleo Branco, essencial para a produção de baterias orientadas para a locomoção automóvel.

Neste sentido, o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), dispõe de um projeto conjunto entre Portugal e Espanha, para criação de fábricas de produção de células de Lítio para baterias automóvel, em regiões de transfronteiriças.

Digitalização e adoção de tecnologias de IA

Também neste domínio, a economia nacional tem dado resposta aos desafios atuais de desenvolvimento, pela inclusão de soluções técnicas de desenvolvimento, assentes em novos quadrantes digitais e sistemas de infotainment (na produção de componentes na Bosch Car Multimédia, e montagem destes, nas diversas fábricas de assemblagem já indicados.

Do ponto de vista de desenvolvimento de tecnologias desmaterializadas, como softwares específicos e soluções TIC multimédia e associadas a algoritmos de condução autónoma, Portugal tem-se afirmado cada vez mais como uma plataforma de desenvolvimento importante.

Com efeito, de referir a importância dos Hub’s da BMW, VW, Mercedes e Critical Software, dispersos por Lisboa e Porto, contando com largas centenas de colaboradores nas áreas da Engenharia, por forma a criar as tecnologias que vão balizar o futuro dos automóveis neste domínio, comprovando a competitividade do conhecimento nacional.


SOBRE O AUTOR

Tiago Souto, mestre em Engenharia Eletrotécnica e de Computadores pelo Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto com especialização em instalações elétricas e gestão de operações, trabalhou em diversos players industriais, Consultor Sénior da FI Group Portugal desde janeiro de 2021 e atual Focal Point do Grupo TIC.