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É indiscutível: a tecnologia vai substituir alguns empregos, ou, mais precisamente, as pessoas que ocupam essas funções e serão poucos os setores não afetados. 

No caso das indústrias transformadoras ou de produção este futuro pode chegar ainda mais cedo, no qual os trabalhadores do conhecimento também estão implicados. De forma prática, as máquinas executam de forma mais eficaz e eficiente algumas tarefas, permitindo uma maior redução de desperdício de matérias-primas e melhorando a capacidade de produção das organizações.  

Estudos recentes têm demonstrado que quanto mais técnica é uma tarefa mais facilmente pode ser substituída pela utilização e introdução de novas tecnologias. Por outro lado, os trabalhos que exigem índices de imaginação mais elevados, análise criativa e pensamento estratégico são mais difíceis de mecanizar. Aliás, as atividades mais complexas de automatizar são, precisamente, aquelas que envolvem a gestão e o desenvolvimento de pessoas, as que implicam tomada de decisões ou resultam de trabalho criativo.

O principal problema é que as pessoas estão a perder os seus empregos. E, enquanto gestores, não estamos a capacitar de forma apropriada estes recursos humanos para desempenharem novas funções. Ora, é urgente colocarmos este tópico na agenda e desenvolvermos uma abordagem de qualificação de recursos humanos que permita às empresas assegurar todo o potencial das suas pessoas, através de uma estratégia renovada que é tanto tecnológica quanto humana.

Sob esta perspetiva, a montante deste processo, deverá existir uma aposta explícita e contínua na educação superior. Contudo, terá de ser feita uma reflexão para alcançarmos um maior “grau de entendimento” entre a oferta formativa das universidades e as empresas. É fundamental que exista uma maior cooperação entre as ESCTN (Entidades do Sistema Científico e Tecnológico Nacional) e demais entidades, para que as empresas possam ser um parceiro ativo na definição de prioridades e opções estratégicas.

A nível nacional, o principal desafio é aumentar o número de investigadores a trabalhar no setor privado, uma vez que a I&D empresarial é o motor da inovação. Até porque, os gastos do setor privado em I&D e a contratação de investigadores no mundo empresarial estão inter-relacionados e dependem das estruturas industriais do país. No entanto, Portugal está a ficar para trás em relação aos seus parceiros europeus. A edição de 2021 do European Innovation Scoreboard (EIS), revelou que o desempenho da inovação continua a melhorar em toda a União Europeia mas, pela primeira vez desde 2014, a economia portuguesa caiu neste ranking, surgindo agora na 19.ª posição, enquanto em 2020 se encontrava no 12.º lugar.

Termos um maior número de investigadores no setor privado não é, meramente simbólico, porque, de facto, iria melhorar a capacidade de inteligência das empresas. Ou seja, uma maior disponibilidade destes recursos iria permitir às organizações absorver tecnologias e conhecimentos que seriam aplicados nos seus processos de produção e comercialização e, consequentemente, refletidos na sua produtividade. A existência de trabalhadores altamente qualificados é uma condição essencial para que as empresas acedam a apoios em projetos de desenvolvimento da investigação. Além disso, permitem a criação de conhecimento que promove a competitividade, crescimento económico e bem-estar.

Em síntese, é premente a necessidade de implementarmos políticas públicas que permitam um incremento da inovação e, consequentemente, o desenvolvimento do nosso país. Em particular, porque estamos perante uma transformação da economia através da transição climática e digital, que associa as dimensões da inovação empresarial e da inovação ao nível do capital humano. Nesse sentido, os pilares de uma política estratégica de desenvolvimento para Portugal devem estar orientados para a valorização do conhecimento, da ciência, da tecnologia e da inovação. Aliás, estas políticas devem estar assentes em matéria de investigação e inovação, resultando numa excelente oportunidade para otimizar a procura de recursos humanos nas áreas de ciência e tecnologia. Além disso, é essencial para que Portugal não enfrente uma “fuga de cérebros” constante e que, pelo contrário, os seus recursos humanos sejam cada vez mais uma fonte de competitividade e bem-estar, assim um fator competitivo de atratividade dos territórios em articulação com os objetivos de coesão social.

Paulo Reis,
Diretor-Geral
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